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I JORNADAS INTERFÓRUNS
PRELÚDIO VII

Segregação, Identidades e Mal-Estar

Sandra Monica del Rio*

“bar-bar-bar”

                Em Atenas se falava grego. Os que vinham de outros lugares falavam outras línguas que os gregos, não os entendiam, ouviam sons guturais, que não faziam sentido para eles: bar bar bar. Vem daí a origem da palavra bárbaro. O estrangeiro.

                Ao adentrar no tema das Jornadas Interfóruns, a saber “Segregação, identidades e mal-estar”, percebemos três grandes questões de forte tom social, que denotam o quanto nós psicanalistas temos ainda um árduo caminho a percorrer, e o quanto precisamos continuar construindo tais reflexões com constância.

                A noção de segregação é complexa e contraditória, por um lado está a estrutura da constituição subjetiva, e por outro temos as práticas de segregação que apontam a anulação do sujeito.

                Precisamos nos manter constantes e decididos no nosso labor, mesmo sem saber se ainda é possível deter o avanço do sujeito puro da ciência, que vai muito rápido quando aliado ao discurso capitalista, impondo um ideal de universalização e homogeneizando os modos de gozar da civilização.

                Sabemos quanto o processo de globalização foi responsável pela promoção de desigualdades entre espaços de consumo e não consumo, através da massificação, produzindo a cultura do consumismo e do descarte, que caminham junto à segregação, onde, segundo a ONU/FAO, 800 milhões de pessoas, ou 10 % da população mundial têm fome.

                Lacan nos adverte no “Pequeno discurso aos psiquiatras de Saint Anne” (1967) que: “há um preço a se pagar pela universalização do sujeito, na medida em que ele é o sujeito falante, o homem”[…] “e que, provavelmente em razão dessa estrutura profunda, os progressos da civilização universal vão se traduzir não somente por um certo mal-estar como Freud já tinha percebido, mas por uma prática, a qual vocês verão se tornar cada vez mais extensa, que não mostrará sua verdadeira face imediatamente, mas que tem um nome, o qual, seja mudado ou não, vai sempre dizer a mesma coisa, e vai acontecer: a segregação“.

                Ou seja, a cultura da universalização tem como principal ferramenta hoje o algoritmo, permite-se cada vez menos espaço para a criatividade, uma vez que os algoritmos das redes sociais definem o que será exibido para cada usuário à partir das pesquisas feitas por ele.

                O Chat GPT é um algoritmo baseado em inteligência artificial. Se funda numa rede neural chamada Transformer, projetada especialmente para lidar com textos. O modelo de inteligência artificial tem várias camadas que permitem à plataforma prestar atenção nas palavras-chave, ao contexto e aos diferentes significados que as palavras podem ter. Com isso, muitas palavras vazias, mortas, sem sujeito. Um blá blá blá para tentar mascarar o vazio e tamponar a falta, o desamparo e a angústia diante do insuportável. Eis então a imposição de um único idioma planetário, restritivo e excludente. Onde o sujeito fica sufocado, objetivado em um mundo padronizado onde o diferente é segregado.

                “barbarbar” me interpela… É também estrangeiro o lugar a ser ocupado pelo analista na sua função. Se fazer estrangeiro com a escuta do sujeito por meio da regra da associação livre, o sujeito, no discurso do campo do Outro, do inconsciente estruturado como uma linguagem. Então, o estrangeiro, simbolicamente, pode ser qualquer um que incomode, pela sua singular maneira de gozar, ao atual sistema que impõe um único campo universalizado de gozo.

                Lacan nos ajuda a pensar que o discurso do analista se contrapõe ao discurso capitalista, uma vez que neste lugar refletimos o quanto se faz fundamental que a psicanálise alcance também o social, nos ocupando do sofrimento causado por todas essas práticas de massificação e da segregação, e à partir da experiência analític,a dar voz ao que concerne à ordem do coletivo.

“A psicanálise é fonte de verdade, mas também de sabedoria. E essa sabedoria tem um aspecto que nunca engana, desde que o homem começou a enfrentar seu destino. Toda sabedoria é um gaio saber. Ela se abre, subverte, canta, instrui e ri. Ela é toda linguagem. Alimentem-se de sua tradição desde Rabelais até Hegel. Abram também os ouvidos para as canções populares, para os maravilhosos diálogos de rua…Neles vocês recolherão o estilo através do qual o humano se revela no homem, e o sentido da linguagem sem o qual vocês nunca libertarão a fala” (LACAN, 1953b, Discurso de Roma p. 152).

                Desejo então que durante as Jornadas Interfóruns sejamos guiados pelos princípios de iniciativa e solidariedade, que nos encontremos entusiasmados para seguir trabalhando e contribuindo com a causa que temos em comum!

E me ne stacco sempre
straniero
Nascendo
tornato da epoche troppo
vissute
Godere un solo
minuto di vita
iniziale
Cerco un paese
innocente
(Ungaretti)

 

*Coordenadora do Fórum do Campo Lacaniano Região dos Lagos (biênio 2023/2024)

 

BIBLIOGRAFIA
LACAN, Jacques. Pequeno discurso aos psiquiatras de Saint Anne (1967)

LACAN, Jacques. Discurso de Roma (1953) – Outros escritos