skip to Main Content

I JORNADAS INTERFÓRUNS
PRELÚDIO V

Capitalismo e experiência de identidade

Ingrid Rohem*

As relações de trabalho e de troca sempre estiverem no ponto central da organização das sociedades, incidindo, portanto, diretamente sobre as formas de laço. As relações de linguagem, estabelecidas em cada época, fornecem os índices que determinam a identidade social, que Soler caracteriza como aquela que é atribuída. Sendo assim, a noção de identidade tem desdobramentos diferentes de acordo com a ordem discursiva da qual é proveniente.

Na Idade Média, marcada pela relação de encadeamento do homem com uma comunidade ou com uma propriedade feudal, a identidade era definida pela posse e pelo pertencimento a círculos sociais ou corporações (SIMMEL,1896).

A destruição de tal unidade veio com a consolidação da modernidade, sobretudo por meio da substituição da economia natural pela economia do dinheiro, que impôs um distanciamento entre pessoa e posse, conferindo caráter impessoal às atividades econômicas e contribuindo para a divisão do trabalho (SIMMEL, 1896). O dinheiro instaurou mais laços entre os homens, mas também implicou em anonimidade e desinteresse pelo outro.

Mudanças nos paradigmas de produção e consumo na transição do modo de produção manufatureiro para o industrial, tiveram efeitos que recolhemos até hoje, como a padronização de itens, que incide sobre os corpos com efeito estético – os corpos passaram a precisar caber nos modelos e formatos pré-estabelecidos.

Por volta dos anos 1970 e 1980, a perda de autoridade das famílias e comunidades tradicionais instaurou um “vácuo social” que, os mercados, por sua vez, se ocuparam de preencher (STREECK, 2013). Nesse cenário, verifica-se um novo tipo de socialização proveniente da comercialização; mudanças na maneira de o indivíduo se conectar com os outros e definir seu lugar no mundo.

Esse sujeito contemporâneo à diluição das fronteiras pela globalização também enfrenta a precariedade das identidades sociais, à medida que referências, até então estáveis, tornam-se suscetíveis e descaracterizadas pela volatilidade da ordem discursiva vigente. Os efeitos do capitalismo deixam os indivíduos inseguros e afetam a construção da identidade, uma vez que essa é produzida no laço social, formula Soler (2018).

Ao formular o que chamou de pseudodiscurso, o discurso do capitalista, Lacan (1972) pretende mostrar o que seria a estrutura do capitalismo, enquanto estrutura que recusa toda experiência subjetiva. Descreve, ainda, o capitalismo a partir de dois processos: adição e obediência. O primeiro está relacionado ao consumo, faz de nós sujeitos de gozo e não de desejo; o segundo se refere ao processo de servidão e dominação exercidos sobre o sujeito.

Ao indicar que o problema da identidade atravessa todo o ensino de Lacan, Soler (2018) diferencia o que chama de “identidade de alienação” e “identidade de separação”, essa última, concerne ao que se visa numa análise, ao que é subtraído da identidade social.

Quanto à identidade de alienação, constitui a história social do sujeito. Nesse cenário, em que o indivíduo se constitui como consumidor, aderido aos gadgets, que experiência de identidade é possível? Quais são os índices identitários provenientes dessa ordem discursiva? Que lugar social para este sujeito?

*Membro FCL Niterói e FCL Região Serrana

Referências Bibliográficas:

LACAN, J. Conferência de Milão. 1972.
SOLER, C. A Psicanálise na civilização. Tradução Vera Avellar Ribeiro; Manoel Motta. Rio de Janeiro. Contra Capa Livraria, 1998.
SOLER, C. Rumo à identidade. Tradução Sonia Campos Magalhaes. 1.ed. São Paulo: Aller Editora, 2018.
– SIMMEL, Georg. “O dinheiro na cultura moderna (1896)”. In: SOUZA, Jessé & ÖELZE, Bertholde (orgs). Simmel e a modernidade. Brasília, Editora UNB, 1998.
– STREECK, Wolfgang. O cidadão como consumidor. Considerações sobre a invasão da política pelo mercado. Revista Piauí, edição 79. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-79/tribuna-livre-da-luta-de-classes/o cidadao-como-consumidor