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I JORNADAS INTERFÓRUNS
PRELÚDIO II

Fibromialgia: dor como mal-estar diante da segregação dos corpos

Pedro Moacyr C. Brandão Jr

A dor é um enigma indecifrável em qualquer cultura e tempo da história. Já foi entendida como castigo de deuses ofendidos; determinante da presença de maus espíritos; ou como resultado da perda de substâncias que seriam vitais para o organismo humano. Dentre tantas atribuições causais, nunca foi possível resumi-la à uma única justificativa. As elucubrações em torno do tema fazem vacilar duas supostas instâncias: o corpo e o psíquico. No decorrer dos séculos as dores deixaram de ser fundamentadas por explicações mágico-religiosas, e com o advento da ciência moderna, ganharam contornos anatômicos e atribuições fisiológicas. A despeito das mudanças nas visões de mundo e das explicações dos fenômenos do Universo, ela sempre foi um indicador de algo que não corria bem com determinado sujeito, sinal do mal-estar, que hoje frequentemente ganha o nome de fibromialgia. Um diagnóstico muitas vezes usado para nomear o impossível de localizar na anatomia e fisiopatologia dos corpos.

Roselyne Rey[1], autora contemporânea que discorre sobre a múltiplas apreensões da dor ao longo dos tempos, a destaca como evidência do problema sobre as relações ou divisões entre alma e soma. A noção dicotômica dos seres humanos tem sua fama atribuída à Descartes, e sua consequente racionalidade (biomédica, segundo Foucault) bem se adequa aos ideais de ciência (ou cientificismo) de nossa época. No entanto, a dor se impõe como experiência universal da condição humana, e coloca em parênteses a unidade biológica de nossa espécie.

Como a histeria de outrora, hoje os diagnosticados com fibromialgia desafiam as explicações e formas de tratamento tradicionais. Circulam por variados serviços de saúde e especialidades médicas sem encontrar um espaço em que possam falar sobre seu sofrimento. É comum que os tratamentos se resumam a intervenções anatômicas, e deixem de lado o mal-estar, que só pode se apresentar na superfície que chamamos de corporal. A clínica psicanalítica é originalmente uma clínica do corpo, o resgatando do exílio promovido pelo corte epistemológico e pela dicotomia cartesiana[2]. Imerso na visão científica e social de sua época, Freud se deparou com dores e sintomas que não se adequavam às leis da anatomia e às descobertas da neurologia. Frente ao enigma de corpos que se contorciam, paralisavam, com dores ou anestesias inexplicáveis para aquela conjuntura, estabelece a psicanálise, que escuta. A clínica – cuja origem grega, kliné, remete-nos ao ato de “inclinar-se sobre o leito dos doentes” – se relaciona na psicanálise a um modo específico de operar com cada sujeito.

Trata-se da escuta de uma Outra cena, cuja direção do tratamento não se destina à supressão sintomática. A pesquisa clínica freudiana pretendeu tocar no que Lacan denominou de falha epistemossomática[3] quando se referiu ao saber da biomedicina sobre o organismo humano. Falha considerada pelo analista a partir da fala de quem ele escuta. Escuta dos corpos falantes e seus mistérios, constituídos pela linguagem, e para além dela, que dá importância ao que fora segregado pelo discurso da anatomofisiologia: o corpo!

A linguagem corpsifica[4] o organismo ao habitá-lo pela fala, mortificando-o e afastando-o de sua naturalidade. Quando se trata de seres de fala, o corpo natural, de pura necessidade, é perdido desde sempre. Essa premissa psicanalítica marca uma distinção quanto à abordagem dos pacientes na clínica, segundo esse viés, o trabalho visará promover que a dor possa ser circunscrita por significantes. Pois, crônica ou não, é corpsíquica[5], e pode assumir diferentes funções para cada um.

A psicanálise trabalha com o corpo segregado pelo corte epistemológico da ciência moderna, este em que se baseia o cogito cartesiano. No mesmo golpe dá tratamento ao mal-estar sempre presente e inerente ao humano. Lacan[6] afirma que o sujeito sob o qual a psicanálise opera é o mesmo da ciência, ou seja, ela se ocupa daquilo que essa operação produz, mas exclui. Em relação à fibromialgia, a aposta é considerar a posição singular do sujeito perante seu corpo e sua dor irremediável, contornando o Real em jogo na experiência de ser falante. Hoje, os Fóruns do Campo Lacaniano situados no Estado do Rio de Janeiro se (re)unem para organizar uma Jornada com fins de retomar novamente e outra vez o ato original da psicanálise. Que seja um bom encontro, com a presença no espaço virtual, mas também com a possibilidade do corpo a corpo dos corredores e auditórios físicos! Vamos ao trabalho!

[1] REY, R. História da Dor. São Paulo: Escuta, 2012.
[2] ALBERTI, S.; RIBEIRO, M. A. (Orgs.). Retorno do Exílio: O corpo entre a psicanálise e a ciência. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004.
[3] LACAN, J. (1966). Psicoanálisis y medicina. In: ____. Intervenciones y textos 1. Buenos Aires: Manantial, 1985.
[4] LACAN, J. (1970). Radiofonia. In: ____.  Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
[5] BRANDÃO JUNIOR, P.M.C. Paradoxos da dor: da dor de existir às dores no corpo, Curitiba: Appris, 2020
[6] LACAN, J. (1966). A ciência e a verdade. In: ___. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 869-892.