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X Jornadas do Fórum do Campo Lacaniano
PRELÚDIO I

Angústia, um tipo de nominação?

Leonado Pimentel

Ao longo de sua obra, Freud empreendera algumas tentativas de abordagem da angústia: transmutação da libido por conta do recalque, sinal de um acontecimento traumático irrepresentável, angústia de castração; além de outras aproximações à teoria de O. Rank sobre a angústia de nascimento – que viriam a ser abandonadas. Suas investigações sobre esse afeto datam de antes mesmo de 1900, aparecendo em certos apontamentos nas suas cartas para Fliess.

E Lacan continuara esse esforço de elaboração, como vemos nos seminários IV, V, IX, X e XXII, dentre outros. Sua definição talvez mais conhecida é a de que a angústia é um sinal do objeto a, ou mesmo do Real. Contudo, no fim de seu seminário RSI (1974-75), Lacan propõe que a angústia, juntamente com o sintoma e a inibição, seriam formas de nominação, de amarração dos registros Real, Simbólico e Imaginário. Isso será feito através de uma iniciativa de formalização clínica que se assenta na topologia.

Como um suporte, e não um modelo, esse ramo elástico da matemática lhe permitira soerguer um edifício conceitual tendo como balizas as relações entre os registros do ser falante, uma vez que a topologia é, em última instância, uma matemática relacional, vinculada às propriedades conectivas e deformáveis dos objetos. Inclusive, podemos identificar outra abordagem de um estudo igualmente relacional já na conferência de Lacan “O simbólico, o imaginário e o real, datada de 1953.

Um pouco mais de duas décadas depois, em “A terceira” (1974), propõe uma primeira localização topológica para o sintoma a partir de um objeto, conhecido por nós como cadeia ou nó borromeano, que articula três elementos. De modo que, em sua mostração, o sintoma fica definido como uma intrusão do Real no Simbólico. Nesse momento, contudo, Lacan ainda não inscreve a angústia na cadeia, mas retorna a esse ponto durante uma releitura do caso Hans, empreendida em RSI.

Segundo Lacan, então, a angústia teria relação com aquilo que, do interior do corpo, ex-siste. Nesse caso, sinaliza que a fobia de Hans é a resposta ao surgimento de uma angústia atrelada à invasão de gozo fálico, um gozo que lhe aparece como estranho, êxtimo. E, desse modo, nessas primeiras lições, a angústia passa a ser finalmente localizada na cadeia de três elos como uma intrusão do Real no Imaginário, em seu viés corporal e de organização egóica.

E então um salto. Será apenas na última lição deste seminário que Lacan retornará ao tema da angústia, agora não mais a partir da cadeia de três, mas com a cadeia borromeana de quatro elos. Nesta, um quarto nó amarra as outras três consistências inicialmente desenlaçadas, função que Lacan identificará ao Nome-do-Pai e à nominação. Três consistências – R, S e I –, portanto três nominações. 

Como sabemos, Lacan desenvolverá a nominação simbólica, o sintoma (ou sinthoma), longamente no seminário seguinte, sobre Joyce; e sobre a nominação imaginária, a inibição, deixa algumas pistas. Lacan diz, inclusive, que essa nominação não nomeia nada, pois apenas faz barreira. Mas mantém silêncio sobre a nominação real, a angústia, e formula a pergunta: “será que devemos colocar o termo nominação como enodado no nível desse círculo com o qual suportamos a função do Real?” (13/05/75).

Como abordar a angústia a partir da função de nominação? Mesmo em Freud, a angústia está do lado do que não tem nome, do irrepresentável, do trauma. Em Lacan, está do lado do Real. A nominação real seria, portanto, um oxímoro? 

Talvez seja preciso que nos debrucemos sobre a conceituação da nominação nesse momento da obra de Lacan, levando em conta não apenas o sinthoma, mas suas outras formas. Como comentamos, ao abordar a inibição, ele afirma que aí não se trata de dar nome, mas de um efeito de parada. Como podemos entender, a partir de nossa clínica, o efeito da angústia em sua inserção na cadeia borromeana? 

Manifestação clínica lancinante, que atravessa o sujeito, a angústia não é um fenômeno novo, como atestam os escritos de Freud; em seus diversos desdobramentos na atualidade – crises de pânico, transtorno de estresse pós-traumático, urgência subjetiva, passagens ao ato, hipermedicalização etc. –, como podemos avançar de modo a formalizar algo desta experiência que toca o Real?

Essas e outras questões encontrarão um solo fértil para discussão em nossas Jornadas de fim de ano, sobre “Os destinos da angústia”. Aguardamos a todos nesse momento tão especial de debate e confraternização, que será certamente muito profícuo. 

Até dezembro.

Referências:
Freud, S. (1894/2001). Manuscrito E. In: Obras completas, v. I. Buenos Aires: Amorrortu.
Freud, S. (1926/2001). Inhibición, síntoma y angustia. In: Obras completas, v. XX. Buenos Aires: Amorrortu.
Lacan, J. (1953/2005). Le symbolique, l’imaginaire et le réel. In: Des noms-du-père. Paris: Seuil.
Lacan, J. (1974/2022). A terceira. In: R.S.I. – Textos complementares. São Paulo: FCL-SP.
Lacan, J. (1974-75/2022). R.S.I. São Paulo: FCL-SP.