ArTorquato emociona público na  XX Jornadas do Fórum-Rio

27 Nov 2018

    

O evento de abertura da XX Jornadas do FCCLRJ e VI do Fórum-Rio “Do Divã à Polis: a Política da Psicanálise”, no último dia 23 de novembro, no hotel South American, foi marcado pela emoção após a releitura dramatizada da peça Artorquato, de Antonio Quinet, lançada em 2006. A obra é uma dramaturgia baseada na vida e na obra de Torquato Neto, considerado um dos fundadores do movimento tropicalista, durante a ditadura militar. Espetáculo, poesia, música, humor e a investigação psicanalítica se articulam na peça para revelar o caráter trágico do artista em consonância com a tragédia pela qual passava o Brasil com ressonâncias nos nossos tempos atuais.  O sentimento persecutório de Torquato se confunde com o momento de perseguição política mostrando a relação moebiana entre a realidade psíquica e a factual como aponta o autor. Na dramaturgia de Quinet, que está também em cena, é o analista que ao receber a visita de um anjo que quer ser humano indica-lhe para seguir a vida de Torquato Neto e lhe dar o dom da poesia tendo como preço a mortalidade. Assim, seguimos de forma novelesca a vida em episódios do poeta em meio a balas e internações no Rio, sendo por um lado atraído pela morte e recorrendo à poesia para dela escapar. Na luta entre a morte e a arte, o público segue a peça, a poesia e a coluna de Torquato  no jornal O Sol (“nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça”) e se  deleita e emociona com as mais lindas canções da Tropicália (de autoria de Torquato, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gilberto Gil) cantadas pelos atores-cantores Aline Deluna (que canta Gal Costa), Eduardo Leão e Ivan Vellami acompanhados por Luis Gama no violão. “Coisa linda nesse mundo é sair por um segundo e te encontrar por aí e ficar sem compromisso para fazer festa ou comício”, cantado por Aline, evoca o clima da época ainda mais por que a cena é transformada em uma passeata com os atores com cartazes: “Procure as brechas”, “Ocupe seu lugar”, “Yes nós temos bananas”, Cadeia? Só de significantes”. E, no final, advém a morte desse “escorpião encravado na própria ferida”, quando o Anjo que representava sua inspiração poética morre assassinado na Lapa e Torquato diz de maneira bela e trágica: “meu pandeiro de bamba, meu tamborim de samba já é de madrugada, meu repertório faliu”. Sem a arte sobra a morte. Torquato morre. E o ator Ivan se levanta e canta com seu sotaque baiano “Alegria alegria”. O público emocionado canta em coro e todos saem fortalecido para enfrentar uma nova era que se inicia.

 

     A escolha da organização pela apresentação desta peça teatral, no ano comemorativo aos 20 anos de fundação da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, ocorreu justamente porque o encontro pretendeu trabalhar a relação do atual contexto político e cultural do país com as questões que chegam aos divãs. As coordenadoras das Jornadas, Georgina Cerquise e Julie Travassos, lembraram o ato de fundação da Escola no qual Jacques Lacan ressalta que, embora seja singular e solitária a relação que cada analista estabelece com a causa analítica, a permanência do discurso analítico no mundo requer o coletivo.

 

     “A psicanálise trabalha com a realidade psíquica e não pode excluir as questões da contemporaneidade. Se a realidade mascara o real, não há, contudo, outra via de acesso. Se a psicanálise almeja bem dizer o mal-estar contemporâneo, como se define então sua política?” Georgina e Julie destacam que “o desígnio dessas Jornadas é, antes de tudo, freudiano. Trilhar um percurso do divã à pólis é levar em conta que o individual e o coletivo têm a mesma estrutura, e não há escolha entre um ou outro, porque não há um sem o outro.”


      Sonia Alberti, na mesa de abertura “Da inércia à transmissão”, falou de sua experiência da clínica em instituição e pontuou que o estilo é o que singulariza um analista. Segundo ela, o analista é aquele que pode mover discursos. Maria Anita denunciou a inércia frente aos acontecimentos como fruto da disfusão das pulsões pelo discurso capitalista, lembrando um dos ensinamentos de Lacan, de que o significante domestica o Gozo. Isso faz lembrar Marginália II, canção marcante na peça ArTorquato, no final de um dos atos, que aponta para a paralisia dos brasileiros no ano de 1968 após o decreto do Ato Institucional nº5, a mesma inércia percebida nos dias atuais mesmo diante de tantas situações de barbáries atingindo os grupos mais vulneráveis. Quinet mostrou como o psicanalista pode intervir na pólis com as armas que a psicanálise fornece: a escuta, o ato e a interpretação. Em sua fala, chamou a atenção para o emprego utilizado pela narrativa fascista atual da paixão do  ignoródio, conjunção da paixão do ódio ao diferente, ao opositor ao “fora da norma”, aos negros, gays, mulheres etc, e, por outro lado, da paixão pela ignorância, o ataque ao saber, o pensamento, ao debate, à razão, cuja maior expressão é a “Escola sem Partido”, e o ataque a todo debate sobre a sexualidade que, de forma canalha, segundo Quinet, chamam de “ideologia de gênero”. E afirmou que a Escola é o nosso elo entre o divã e a pólis.

 

     No domingo (25),  na plenária “Na contramão do manicômio: um inventário do Bispo”, Glória Sadala destacou o ato criativo como um ato político e relembrou o sucesso de ArTorquato no primeiro dia do encontro: ”O autor não supunha os efeitos que teria. O público se integrou e se entregou à obra. A peça não teria sido como foi  sem a participação daquele público”, concluiu Glória.      

 

     Os cerca de 300 participantes, e 60 trabalhos inscritos, debateram durante os três dias das Jornadas, temas atuais como “A política da histeria”, “A política do capital”, “Psicanálise e Política”, “A Escola de Lacan: ética do bem-dizer”, “Psicanálise e manifestações artísticas”, “Crianças na pólis”, “Desejos e discursos”, “Psicanálise e Medicina”, “Amor e Diferença”, “Enlaçamentos”, “Vicissitudes da pulsão de morte”, “Lugar do sujeito”, “O psicanalista na pólis”, “O sintoma e a política”, “Psicanálise e Saúde Mental”, “Psicanálise e instituição”.

 

      As jornadas confirmaram a vocação da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, como disse Quinet, citando Raul Pacheco do FCL-SP, é uma “Escola com partido: Sim, tomamos partido: da Psicanálise, da liberdade de expressão e pensamento, da democracia, da liberdade sexual.”  É isso aí! É preciso estar atento e forte!
 

 

 

 

 

 

 
Crédito das fotos: Elvina Lessa

 

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a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

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