O compromisso daqueles que têm o desejo pela democracia

2 Nov 2018

 



O evento promovido pelo Fórum-Rio da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, em parceria com a Cinemateca do MAM, “Desejo projetado: do cinema à psicanálise”, coordenado por Julie Travassos e Felipe Grillo reuniu, no dia 17 de outubro, mais de 200 pessoas. Após a exibição do filme “A Onda”, ocorreu o debate com os psicanalistas Antonio Quinet, Elisabeth da Rocha Miranda, Vera Pollo e Maria Luisa Rodriguez.

 

A presença de um grande público demonstra que o momento requer reflexão para enfrentar a onda fascista e, como vários presentes no evento constataram, é ainda mais impactante assistir ao filme vivenciando a atual situação do Brasil. Elisabeth da Rocha Miranda lembrou as três paixões fundamentais do ser, segundo Jacques Lacan: o amor, o ódio e a ignorância e pontua que as pessoas estão apaixonadas pelo ódio e pela ignorância do outro. Vera Pollo  analisa que o filme é uma perfeita  ilustração do texto de Freud “ Psicologia das Massas e Análise do Eu”. Segundo ela, estamos vivendo no país o fenômeno das massas e da segregação, com o desvelamento de uma ideologia que já existia mas estava desautorizada – contra os negros, os gays, as mulheres.  

 

Maria Luisa Rodriguez avalia que nos dias atuais temos a invasão do real por meio do horror de fakenews que proliferam nas mídias sociais. “Produzir é a nossa maneira de resistir a isso”, sugere ela. Para Antonio Quinet o que aparece claramente no filme é exatamente o que está em jogo no momento: o gozo do grupo. O discurso do fascismo autoriza a violência, o gozo sádico contra o negro, contra a mulher, contra os homossexuais. “É o ódio dirigido ao outro, à forma como o outro goza; é o ódio ao héteros, ao que é diferente. O gozo diferente é segregado e designado como inimigo”, alerta.

 

Quinet lançou o questionamento de como surgiu esta onda fascista que estamos vivendo atualmente no Brasil. “Para além da insegurança gerada pela crise econômica que vivemos, para além do descrédito da classe política em geral devido aos escândalos de corrupção e seu fomento pela grande imprensa, o que fez surgir a figura do líder em um deputado completamente inexpressivo?, indaga o psicanalista. 

Ele entende que o movimento vem desde 2016 quando os discursos na votação do impeachment citavam a “família”, “a inocência das crianças em sala de aula” e uma declaração à favor da ditadura. Aliado a isso, o medo e o pavor vem sendo instaurado na sociedade com as ideias dos  “cidadãos de bem“  terem posse de arma para defenderem a si mesmo e suas propriedades privadas. E, então, surge o líder que vai colocar ordem nisso tudo na perspectiva de “salvador da pátria”, usando a força para ter ordem e disciplina. Quinet destaca que não foi por amor ao líder que o grupo se formou, mas pelo ódio representado pelo antipetismo, este sim o significante da unificação da massa.

 

Este líder, eleito pelos descontentes, se coloca claramente no lado do pavor, que será o seu método para instaurar, com seu discurso, o pavor para as mulheres, os trans, os negros, os gays, servidores públicos, artistas e todos os seus opositores. O psicanalista afirma que isso está sendo visto nos consultórios: o pavor sendo instalado. Os eleitores  passam a atos de violência, como o assassinato do capoeirista Moa do Katendê, na Bahia, sentindo-se autorizados pelo discurso do “mito”.

 

A psicanalista Maria Anita Carneiro não pode estar presente mas encaminhou a sua mensagem para a organização do evento.  Ela traz a sua experiência como lição de como encarar os tempos sombrios. “ São anos de psicanálise e uma coisa posso lhes garantir: nós sobreviveremos! De um modo ou de outro, vamos encontrar um caminho. Então o momento é de aposta, de luta , de esforço, mas não de desespero. Temos antecedentes. Freud fugiu, a contragosto para o exílio, durante o domínio criminoso do fascismo, de sua Viena. Mas não foi derrotado. Escolheu a hora e a vez de sua despedida, desafiando, altivo, aqueles que se desejavam seus algozes. Melanie Klein, refugiada política, teve que de Londres fugir para o campo, para uma cidade do interior, onde analisou Richard, o seu paciente de nove anos, também refugiado, depois de ter tido sua casa bombardeada , e cujo caso, publicado, se tornou um clássico da literatura psicanalítica”. Maria Anita lembrou também de Karl Abraham e Wilfred Bion que “serviram como oficiais médicos nas guerras mundiais do século XX. Abraham morreu, jovem, em consequência dos sofrimentos terríveis da Primeira grande guerra. Freud lhe endereçou “Luto e melancolia”. Bion criou a terapia de grupo para poder lidar com as atrocidades da Segunda Guerra mundial. Lacan lhe dedicou o texto “A psicanálise e a guerra “.”

 

No Brasil, Maria Anita lembra o trágico episódio de um psicanalista que contribuiu  com as torturas ocorridas durante o período dos militares no poder e a coragem de uma mulher psicanalista em denunciá-lo . “ Durante os anos de chumbo, da ditadura militar brasileira, enfrentamos a humilhação suprema de um homem, que se dizia psicanalista, colaborar com a tortura. Mas, no mesmo movimento presenciamos uma mulher, esta psicanalista de direito, denunciá-lo ao mundo, com firmeza e coragem.”

 

E, se a maioria do público que estava no evento era formado por psicanalistas tomados pela dúvida de como devem agir nestes momentos de horror, a mensagem de Maria Anita prossegue: “Porque é isto que nós, psicanalistas, fazemos. Sustentamos o desejo e lutamos, com nossas armas, um bom combate. E nossas armas são sutis, mas poderosas. São a verdade e o desejo. A verdade do inconsciente que , como diz Lacan, é irmãzinha do gozo, e o desejo que, como diz Freud, é imortal e indestrutível.”´

 

A escritora Elika Takimoto, também professora do CEFET e colunista da Revista Fórum, participou do debate e destacou a educação como único meio no processo de conscientização e transformação, em contraponto principalmente à igreja evangélica que há anos organizou um plano de poder para ter o controle das massas. Elika solicitou também uma autocrítica de todos para refletirem sobre as situações que não participaram porque o assunto não interferia diretamente em suas vidas. “A questão da escola sem partido, cuja discussão foi iniciada lá atrás, já anunciava o que viria, mas poucos brigaram por isso”, analisa.

 

 

Após quase quatro horas de evento, os participantes saíram certos de que há uma luta  posta na sociedade brasileira e os psicanalistas deverão usar as armas da palavra e do diálogo para resistir. O psicanalista Felipe Grilo, organizador do evento, avalia que a atividade e a escolha do filme foram muito assertivos considerando o momento crucial das eleições. "Propusemos um debate aberto onde não se tratou de con-vencer o outro que pensa diferente. E sim de pensarmos juntos e analisarmos a conjuntura atual do Brasil a partir da contribuição da psicanálise”, conclui Quinet.

 

 

 

Por Cinara Santos
Créditos das fotos: Leonardo Barreto

 

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a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

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