Folhetim, n. 13 - Da infância ao infantil

7 Aug 2017

Lançamento: Dia 09 de agosto, às 20:00h

Local: Rua Goethe, 66 – Botafogo

 

Sumário

 

 Editorial

Bela Malvina

Vera Pollo

 

CONFERÊNCIA

 

Demanda, desejo e gozo na psicanálise com crianças

Zilda Machado

 

EM TORNO DA TEORIA

 

O que se transmite da infância ao infantil

Consuelo Pereira de Almeida

 

O sujeito e seus objetos

Vera Pollo

 

Pokémon Go: o que quer uma criança?

Sheila Abramovitch

 

Alice no País das Maravilhas, ou não

Maria Anita Carneiro Ribeiro

 

O Pequeno Homem-Galo e o Pequeno Hans lançam luz sobre as fobias e os rituais totêmicos

Nádia Afonso de Souza Martins

 

O mal-estar da criança e seu retorno no adulto em forma de violência

Sheila Abramovitch

 

Função e campo da fala e de lalíngua

Vera Pollo

 

HOMENAGEM

 

Homenagem a Jenny Aubry

Maria Vitória Bittencourt

 

A CLÍNICA DO SUJEITO NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA

 

A transferência na psicanálise com criança: uma ilustração clínica

Maria Helena Martinho

 

“Eu não sou boba” – algumas questões sobre a debilidade

Edna de Assunção Melo Chernicharo

 

Ela era tudo para mim...

Elisabeth da Rocha Miranda

 

O menino, o lixo e a letra proibida

Vanisa Maria da Gama Moret Santos

 

A adolescência e a clínica psicanalítica

Geisa Batista de Freitas

 

RESENHA

 

Fugir para adiante: o desejo do analista que não retrocede ante as crianças

Mayla Di Martino

 

Editorial

 

Em setembro de 2013, na cidade de Armação de Búzios, realizamos a primeira Jornada sobre psicanálise com crianças do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Seu tema/título “Autismo, um debate atual: o sujeito em pleno direito” teve o propósito de escutar o que a psicanálise e os psicanalistas têm a dizer sobre os espinhosos temas do autismo e da debilidade. O sucesso do evento serviu-nos de inspiração para darmos prosseguimento e, desde então, temos realizado uma jornada a cada ano, de modo que, em 2017, realizaremos a “V Jornada de Búzios”, como ela passou a ser resumidamente designada.

 

Nas três primeiras Jornadas, convidamos, a título de conferencista, um colega de outro Fórum do Campo Lacaniano do Brasil de reconhecido saber sobre o tema que abordaríamos. Assim, em 2013, contamos com a participação de Luís Achilles Rodrigues Furtado, de Sobral, no Ceará, que nos presenteou com o lançamento de seu livro Sua majestade o autista: fascínio, intolerância e exclusão no mundo contemporâneo. No ano seguinte, recebemos Zilda Machado, do Fórum de Belo Horizonte, e, no terceiro ano, Ana Laura Prates Pacheco, do Fórum de São Paulo. A conferência de Zilda Machado foi intitulada “Psicanálise com crianças: demanda, desejo e gozo” e abre este número especial de Folhetim, todo ele dedicado a divulgar trabalhos apresentados nas Jornadas de Búzios.

 

De 2013 a 2016, a “Jornada de Búzios” aconteceu sempre no mês de setembro, mas em 2017 será diferente, porque, em setembro, o Rio de Janeiro sediará a II Jornada Interamericana da Escola, o II Simpósio Interamericano da IF e o XVIII Encontro nacional da EPFCL-Brasil. A V Jornada de Búzios acontecerá, portanto, nos dias 01 e 02 de dezembro, no centro de convenções da Pousada Pérola, sob a coordenação de Vera Pollo, Elisabeth da Rocha Miranda e Maria Vitória Bittencourt. Terá como tema “O real infantil na clínica psicanalítica” e será realizada em conjunto com a XIX Jornada de Formações Clínicas do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro.

 

Da infância ao infantil, título que escolhemos para esta edição, vem nos lembrar que o ato analítico faz surgir o infantil em cada sujeito, pois, como asseverou Freud, a sexualidade nos seres falantes é sempre infantil. Enquanto psicanalistas, temos a tarefa de reinventar a psicanálise a cada sessão e de dar provas de nossa clínica por meio de elaborações que giram em torno da teoria. Zilda Machado parte da “experiência de satisfação”, tal como Freud a elabora em 1895, para cernir o nascimento do desejo indestrutível e o real do gozo. Ela nos recorda que o tratamento de uma criança implica necessariamente o enlaçamento da demanda, do desejo e do gozo de várias subjetividades. Logo, saber lidar com essas vicissitudes é o que faz a diferença na sustentação da transferência, permitindo a continuidade do tratamento da criança.

 

Em torno da teoria, o trabalho de Consuelo Pereira de Almeida, “O que se transmite da infância ao infantil”, retoma o mito de Édipo com Lacan e o ilustra com o tratamento de um sujeito que, ao fazer uma escolha, acaba caindo na armadilha de sua própria verdade. O texto de Vera Pollo, “O sujeito e seus objetos”, parte da constatação de que o vocábulo “objeto” apresenta uma abrangência conotativa de largo espectro na teoria psicanalítica, pois suas significações se estendem de das Ding, objeto coisa sem nome e sem imagem, até os gadgets, objetos-prontos-para-o-gozo no discurso do capitalismo. Ora, é justamente em torno de um gadget, um brinquedo eletrônico cujo nome é Pokémon Go, que Sheila Abramovitch se detém para indagar o que quer uma criança. Ela é de opinião que a criança contemporânea pede ao analista que entre no discurso globalizado, e isso a leva a se perguntar como ouvir significantes para além das tecnologias. Sheila, todavia, conclui que, além ou aquém do mais sofisticado brinquedo, uma criança quer mesmo é um lugar no desejo dos pais. Em seguida, sob o sugestivo título de “Alice no país das maravilhas, ou não”, Maria Anita Carneiro Ribeiro argumenta de forma contrária à tendência de classificar como “pedofilia” o amor de Lewis Carroll por Alice Liddell, a menina de 11 anos que aparece em suas fotos. Nádia Afonso de Souza Martins discorre sobre as diferenças entre o “totemismo positivo” do Pequeno Homem-Galo e o “totemismo negativo” do Pequeno Hans, articulando-os aos complexos de Édipo e de castração. Na sequência, debruça-se também sobre o estudo dos rituais totêmicos apresentados por Freud em “Totem e tabu”. Adiante, Sheila Abramovitch apresenta uma pesquisa de campo realizada à luz da psicanálise no Ambulatório de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital Universitário Pedro Ernesto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Por constatar que a violência é o principal evento traumático envolvido nos transtornos psiquiátricos da infância, ela indaga o que deve acontecer para que um evento físico se torne um trauma psíquico, e recorre aos textos finais de Freud para interpretar o fracasso de muitos tratamentos de criança e a impossibilidade de educar a pulsão. Encerrando a série dos trabalhos mais teóricos, Vera Pollo rastreia as principais colocações de Lacan sobre o que sucede ao infans, desenvolve o conceito lacaniano de lalíngua e ilustra seu texto com fragmentos de falas de diferentes crianças, para concluir que o ego que James Joyce constrói, possibilitando-lhe a amarração do nó, desvela seu uso muito particular de lalíngua.

 

Em Homenagem a Jenny Aubry, Maria Vitória Bittencourt lembra-nos primeiramente que a pequenina joia de Lacan a que nos referimos sob o título de “Nota sobre a criança”, cuja riqueza está bem longe de já ter sido suficientemente extraída, tinha um destinatário bem preciso: a psiquiatra e psicanalista francesa Jenny Aubry. O trabalho inovador de Jenny Aubry, tanto na instituição Fondation Parent de Rosan, quanto no Hôpital des Enfants Malades, é considerado momento de abertura para o lugar do psicanalista na instituição e para o tratamento possível da criança psicótica.

 

Na seção intitulada A clínica do sujeito com crianças e adolescentes, Maria Helena Martinho narra o caso de João, um menino de sete anos que relata à analista uma sucessão de guerras interplanetárias, lutas e desafios entre o bem e o mal. Em transferência, ele é levado a trabalhar a relação entre o sexo e a morte. O texto de Edna Chernicharo descreve o tratamento de uma moça que, no início, mais parecia “uma criança de vinte anos”, pois ela “se apresentava tal qual o boneco do ventríloquo, um sujeito ‘oco’ cujo corpo é manipulável e articulado por um Outro que fala atrás dele”. No entanto, a tomada da debilidade como um significante e a aposta na emergência do dizer produziram os melhores resultados, possibilitando que, enquanto sujeito, ela enunciasse seu desejo de separação nos termos de “Eu não sou boba.” E, como afirma Edna, a “debilidade” era, na verdade, um significante do desejo obscuro da mãe. Elisabeth da Rocha Miranda descreve o percurso analítico de uma menina cuja mãe dizia ter nela “uma parceira de verdade”, enquanto a primeira vivia em intensa angústia e referia-se à mãe nos termos de “ela era tudo para mim.” No decorrer da análise, o relato de um sonho opera uma importante virada e a pequena analisante começa a construir seu romance familiar. Na sequência de artigos clínicos, em “O menino, o lixo e a letra proibida”, Vanisa Moret Santos discute hipóteses diagnósticas de um menino de 13 anos encaminhado para tratamento pelo Conselho Tutelar. Ela indaga e responde à questão “tratar-se-ia de um histérico gentil e sedutor ou de um perverso encantador com seus truques e magias?” Na conclusão dessa parte clínica, Geisa Freitas discorre sobre as sessões de uma jovem de 17 anos que, em seu encontro com o real do sexo, teve o desejo aflorado pelo namoro da mãe, mas não sabia como servir-se de seu próprio corpo.

 

Na seção Resenha, Mayla Di Martino escreve sobre o livro Fugir para adiante: o desejo do analista que não retrocede ante as crianças, de Pablo Peusner. “Fugir para adiante” é, antes de tudo, fugir da pergunta sobre a culpa dos pais, mas é também fugir do circuito de sabedoria que caracteriza o “eu”, e seguir, não sem espanto, em direção à “linguagem como causa”. Mayla ressalta a leveza do estilo de Peusner, que expõe a diferença entre estar submetido à estrutura significante e estar submetido à organização holofrásica da linguagem, dois modos de estar no mundo. Ressalta também que o autor articula o sintoma na criança àquilo que não se encaixa na estrutura da linguagem, isto é, à desproporção entre as posições sexuadas na linguagem (homem e mulher), de que trata Lacan em seu O Seminário, livro 20: mais, ainda, nos anos de 1972 e 1973. “O sofrimento das crianças é a desproporção”, prossegue Mayla citando Peusner, e as entrevistas com pais e parentes são uma “batalha necessária”, para que haja “influxo analítico” sobre eles.

 

Boa leitura para todos.

 

 

Bela Malvina

Vera Pollo

 

 

 

 

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a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

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