Folhetim 12 está chegando...

9 Nov 2016

Lançamento nas XVIII Jornadas de Formações Clínicas do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro.

Dias 2 e 3 de dezembro de 2016

Local: South American Copacabana Hotel | Rua Francisco Sá, 90 – Copacabana - RJ

 

Tema: O amor é signo de que trocamos de discurso

 

SUMÁRIO

Editorial

Vera Pollo

 

Os estados do amor

Sidi Askofaré

 

 (Des)enlace analítico: outro desejo, novos laços

Marcia de Assis

 

O paradoxo da necessidade de amar

Ricardo de Barros Cabral

 

"Eu matei minha mãe": sobre o paraíso e o purgatório entre mãe e filho

Felipe A. Garcia Grillo 

 

Transferência: o outro nome do amor

Sandra Mara Nunes Dourado

 

Orgulho e preconceito... gay

Leonardo Pimentel

 

 O amor no sentido genital na fantasia “bate-se em uma criança”

Luciana Piza

 

Outros temas

 

Sobre o fim

Rosane Braga de Melo

 

Figuras de deidades soberanas das margens e do estrangeiro

Matías Buttini

 

Demanda no ar

Jorge Chapuis

   

Resenha

Da fantasia de infância ao infantil na fantasia

Bela Malvina Szajdenfisz

 

EDITORIAL

 

“O amor é signo de que trocamos de discurso”, a frase que extraímos do Seminário 20 de Lacan nos parece o melhor resumo da série de textos que compõem a seção temática deste Folhetim 12. Inscrevem-se, em sua maior parte, no tema que estivemos debatendo em Medellín, no último mês de julho, por ocasião do IX Encontro da Internacional dos Fóruns e V Encontro internacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano: “Enlaces e desenlaces segundo a clínica psicanalítica.”

 

O texto de Sidi Askofaré, membro do Fórum de Toulouse, foi sua conferência de abertura dos trabalhos do Fórum do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2016. Sidi o intitulou “Os estados do amor”, por se deixar inspirar, como ele próprio nos relata, pela obra de Zygmund Bauman sobre a fragilidade dos laços entre os homens. Bauman forjou o sintagma “amor líquido”, e Sidi se propôs a elaborar o que separa os laços com fim pré-determinado dos laços sem fim. Seu texto nos conduz passo a passo ao encontro da especificidade do laço analítico, única forma de laço que visa a perda do poder do agente. Destacam-se em seu texto dois momentos cujo tom é mais enfático, em um ele nos recomenda a leitura das Correspondências Freud-Pfister e Freud-Jung, no outro, ele conclui que a ética da psicanálise, tal como Lacan a concebe, deriva de princípios que se podem isolar a partir das reservas e críticas de Freud à educação, à religião e à medicina.

 

O trabalho de Márcia de Assis, do Fórum do Campo Lacaniano de Niterói, foi também objeto de um vivo debate no Fórum do Rio de Janeiro. Trata-se de uma pesquisa sobre o ponto de finitude de uma análise e o que se apresenta no percurso analítico, com ênfase no sintoma e na sequência dos afetos. Estes se estendem dos amores com a verdade à “depressão de fim”, termo que ela toma emprestado de Izcovitch (2010), e que define, não como um afeto-signo, mas, como “índice de uma travessia”. Márcia se refere ao entusiasmo como “o afeto que está ao lado da satisfação de fim”, e menciona que lhe parece pertinente que o cartel do passe indague se houve mudança no campo amoroso do sujeito no decorrer da análise.

 

Ricardo Cabral abre seu texto esclarecendo seu interesse pelos “invariantes da psicanálise e sua clínica”. Discorre sobre a tríade lacaniana “necessidade, demanda e desejo” e propõe, de forma ao mesmo tempo simples, rigorosa e aforística, que “não há outro fim para a psicanálise, senão refazer laços de amor”. Uma análise pode refazer os laços de amor, porque, embora não seja “preciso”, “o amor é necessário”. É o que diz a letra da música que Ricardo cita: “As coisas não precisam de você, quem disse que eu tinha que precisar?”

 

Em “Transferência: o outro nome do amor”, Sandra Mara, do Fórum de Fortaleza, desdobra a relação entre o amor e o saber, não qualquer saber, mas o “saber insabido” que é posto em jogo no decorrer de uma análise, ou seja, um saber que se inventa para semidizer a verdade. Já Felipe Grillo, em seu texto, indaga o amor filial de Hubert, personagem do filme de Xavier Dolan, “Eu matei minha mãe”. Descreve-o como um amor a tal ponto conturbado, que o jovem sujeito sente-se totalmente incapaz e já não sabe se ama ou se não ama, pois ele “ama odiar e odeia amar sua mãe.” Para esclarecer tal posição enigmática, Felipe recorre à Colette Soler, para abordar a função materna, assim como recorre à poesia de Viviane Mosé e a mais alguns autores, para comentar a função mais-de-gozar do objeto a.

 

Em seu belo texto, “Orgulho e preconceito...gay”, Leonardo Pimentel demonstra que, embora as homossexualidades não constituam um conceito psicanalítico, mas “uma forma nominalista de tratamento do discurso social”, isso não impede que a homossexualidade “manifesta” seja violentamente atacada. Ela o é justamente por dar-a-ver o estranho-familiar que habita em cada um de nós e que desperta angústia. Na sequência de sua argumentação, Leonardo escreve a lógica da heteronormatividade nos seguintes termos: macho<> fêmea-filhos. Quanto ao ataque de que o homossexual é vítima, este também seria consequência, segundo Leonardo, da instigação de “uma afronta ao imaginário da relação sexual enquanto algo que existiria”, pois, “enquanto o amor insiste em unir dois corpos, o sexo demonstra a solidão do gozo.”

 

 Em “O amor no sentido genital na fantasia “bate-se em uma criança”, Luciana Piza desenvolve com clareza os três tempos da fantasia e responde à pergunta que ela própria levanta no início: “O que Freud quer precisar com a expressão “amor no sentido genital”?” Seu texto nos relembra que a visão ampliada que a psicanálise tem do amor não é propriamente uma inovação, no sentido histórico do termo, pois é débito de Freud com Platão. Em seguida, esclarece, com Lacan, que a transformação que faz do espancamento não um representante da falta de amor, mas, ao contrário, um símbolo do amor, resulta de um desmentido da existência do rival e da afirmação da existência do sujeito. Então, em um movimento de expansão e atualização do assunto, se assim pudermos nos expressar, Luciana indaga se a mesma mensagem não estaria subjacente ao gesto do papa Francisco de beijar os pés dos imigrantes refugiados: “uma forma de afirmar o sujeito pelo amor, inibido na sua finalidade sexual?”

 

A seção de “Temas correlatos” abre-se com o texto-depoimento de Rosane Melo sobre sua experiência de passadora e de passante. Acerca da primeira, ela nos relata que, funcionar como passadora, lhe permitiu verificar in vivo – expressão que, nesse caso, é nossa – a efetividade da pluralidade de línguas que caracteriza nosso comunidade e do trabalho analítico de decifração. A partir de sua experiência como passante, lhe é possível afirmar que “o desejo do analista, dito inédito, decidido e advertido, impele ao ato”, logo, por meio do acréscimo à experiência que o passe faculta ao passante, este se torna, “ipso facto, responsável pelo progresso da Escola.”

 

Os dois textos que vêm a seguir, como o de Sidi, trazem mais algumas importantes contribuições de colegas de Fóruns de outros países. Matías Buttini, do Fórum do Rio de la Plata, na Argentina, apresenta-nos um trabalho que é, ao mesmo tempo, a discussão do lugar do analista na condução do tratamento de um sujeito paranoico e uma “leitura particular” de antigas figuras gregas condensadas no mito de Perseu.” O paciente, um sujeito paranoico, indaga-lhe sem meandros desde o primeiro momento: “De quê você me servirá?” De acordo com o texto de Buttini, é possível sustentar que a clínica psicanalítica cotidiana se amplia e enriquece com saberes advindos de outras fontes, como, em seu caso, o estudo da Antiguidade e dos mitos gregos. Entre as citações que aparecem em seu texto, queremos destacar a frase de Giorgio Agamben sobre a estrutura topológica de umbral, a topologia do estado de exceção. Nela, é possível “estar-fora e, contudo, pertencer”, afirmação que nos lembra a passagem em que Lacan (1967/2003, p.270) afirma que “o desejo do analista é o lugar de onde se está fora sem pensar nele, mas no qual encontrar-se é ter saído para valer.”[1]

 

O trabalho de Jorge Chapuis, membro fundador do Centro de Investigaciones Psicoanálisis y Sociedad, de Barcelona, tem um título curioso: “Demanda no ar”. Esta seria uma demanda bem particular, sem visar um trabalho analítico senso estrito, mas apenas uma intervenção bem delimitada, em que o analista todavia aposta, na perspectiva de que possa vir “a amadurecer uma transferência analítica”.  O colega declara sua “afinidade com a ferramenta topológica”, que o leva a comentar borromeanamente a encruzilhada de seu paciente.  Na sequência, ele nos apresenta as duas formas de se fazer um Nó Bo4, quer seja  amarrando-o pelo sinthoma, o qual dobra o aro do simbólico, ou pela “realidade psíquica”, que dobra o aro do imaginário. Chapuis observa que Michel Bousseyroux (2011) propõe um enodamento de cinco aros correspondente à “nominação do real do pai pela angústia.” Mas encerra seu texto com uma série de perguntas a serem posteriormente retomadas.

 

Folhetim 12 se conclui com a resenha do livro de Ana Laura Prates Pacheco, “Da fantasia de infância ao infantil na fantasia”, escrita por Bela Malvina Szajdenfisz. Ele foi objeto de uma apresentação e debate no Fórum Rio, na atividade intitulada “Conversa com os escritores.” Bela destaca primeiramente que os dois “belíssimos prefácios”, escritos respectivamente por Antonio Quinet e Pablo Peusner, anunciam a posição de ensinante da autora do livro e ressaltam o quanto ela soube habitar “a fronteira móvel da conquista analítica”. Em seguida, Bela comenta paulatinamente cada um dos cinco capítulos e a conclusão da autora, segundo a qual um analista desavisado pode vir a ocupar a posição de mestre, se ele se deixar embaraçar com a fantasia de infância que povoa o seu próprio imaginário.  É preciso nos darmos conta de que “a despeito das teorias sobre a maturação e a cognição, há algo que não desenvolve.”

 

Algo que não desenvolve, mas se faz presente, por isso cabe em palavras, como na poesia de Viviane Mosé:

 

Sua presença me presença em mim

Presença em mim

Presença

Ausência me devolve

No meu deserto a palavra cabe

 

Vera Pollo

 

 

 

[1] Lacan, J. “Discurso na Escola Freudiana de Paris” in Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 265-287.

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a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

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