Prelúdio III, III Jornada de FCL-RJ

A criança sintoma e o sintoma da criança

A teoria psicanalítica sobre a criança é exatamente a própria teoria psicanalítica, pois ela diz respeito ao sujeito, seja ele criança ou adulto. No entanto, a práxis com crianças se revela de forma peculiar para aqueles que se dispõem a escutá-las.

Uma criança chega ao consultório levada por seus pais ou responsáveis e é necessário que exista demanda de análise por parte deles, isto é, que falem do sintoma atribuído à criança. Nas entrevistas preliminares, a criança deve ser ouvida independente do discurso de seus pais. É importante que o analista distinga a criança sintoma do sintoma da criança, para poder escutá-la enquanto sujeito e não apenas reduzi-la àquilo de que os pais se queixam, ou com o que eles gozam. No entanto, o sintoma sempre inclui o sujeito e o Outro. A criança deve ser entendida em seu contexto familiar, pois seu sintoma se relaciona com a família – o seu primeiro laço social. Aliás, todo sujeito, criança ou adulto, para constituir seu sintoma analítico, retira necessariamente algo do par parental.

A questão sobre o que revela o sintoma da criança é essencial para orientar o analista quanto à perspectiva diagnóstica. Caso contrário, demarca-se o perigo do analista se fechar em balizamentos prévios e rígidos. O sintoma da criança deve ser tratado não de forma estanque ou como alvo exclusivo de atenção, mas sim como uma mensagem a ser decifrada, para criar de forma transferencial a possibilidade de surgimento de seu desejo.

Na Nota sobre a criança (1969/2003, p.369) enviada à Jenny Aubry, Lacan aponta que o sintoma da criança acha-se em condição de responder ao que há de sintomático na estrutura familiar. Nesse primeiro contexto, o sintoma da criança representa a verdade do casal parental. É o caso mais complexo, mas também o mais acessível às intervenções psicanalíticas – é a posição da neurose. No segundo contexto, o sintoma da criança decorre da subjetividade da mãe, da verdade só da mãe, ele é correlativo da fantasia materna em que a criança é implicada – é a posição da psicose.

Quanto à psicanálise com crianças, devemos considerar que o que faz signo para os pais, não necessariamente faz sintoma para a criança. Com efeito, o trabalho analítico consiste em acompanhá-la na constituição de seus próprios sintomas. São algumas questões que Lacan nos propõe e que nos colocam a trabalhar o tema A criança no laço social, em Búzios, na III Jornada de Psicanálise do Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro.

Glória Justo Martins

a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

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