Prelúdio I, III Jornada de FCL-RJ

A criança e o laço social

Nesta época de globalização, à qual Lacan se referia como um “ tempo planetário”, a segregação é a regra e não a exceção. Tudo muito bem camuflado, é claro, como convém ao discurso do mestre, ao discurso da dominação. Aparentemente, nunca se aceitou tanto a diversidade, mas, ao mesmo tempo, nunca se segregou, odiou e atacou tanto o próximo, segundo a lógica que Freud já desenhara com o conceito de “narcisismo da pequena diferença”.

É o nosso semelhante que segregamos, ao lhe atribuir um excesso de gozo, um gozo-a-mais. Às crianças, por serem pessoas pequenas, com uma linguagem peculiar, é atribuído um gozo a ser domesticado, educado, treinado, o que faz com que a criança sempre compareça na posição de objeto no laço social.

Lacan nos diz que Freud, ao dar ao gozo o lugar central em sua teoria, estabelece as bases da ética da psicanálise, na contramão da moral civilizada, dando ao psicanalistas os instrumentos para combater o ódio e a crueldade que entranham a segregação.

Mas, estarão os analistas de hoje, mais do que os da época de Freud , ou mesmo de Lacan, à altura desta tarefa? Lacan sempre sublinhou o fato de que foi a psicanálise com crianças que estabeleceu e deu forças aos desvios imaginários pós-freudianos, sustentando a possibilidade da relação sexual na dupla ideal mãe-filho.

À criança generalizada, nostalgia de uma completude impossível, a psicanálise contrapõe o sujeito do inconsciente, determinado pela fala e pela linguagem e causado pelo objeto para sempre perdido. Cabe ressaltar que o único discurso que não coloca a criança na posição de objeto é o discurso da psicanálise, no qual o próprio analista ocupa a posição de semblante de objeto para, como agente, causar a análise do sujeito criança.

Estamos numa época em que nunca se ofereceu tantos recursos para cuidar das crianças, e assim sustenta-la no lugar de objeto, quer dos maus tratos de uma política que não se acanha em eliminar as das classes menos privilegiadas ( estas não são crianças, são menores ), quer das exigências infindas de cursos que as preparariam para a selva competitiva do capitalismo.

Nossa Jornada é uma ocasião de tentarmos responder, hoje, ao desafio que a psicanálise com crianças propõe, ao colocar a criança na posição de sujeito e buscar subverter a lógica da segregação.

Maria Anita Carneiro Ribeiro

a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

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