Prelúdio II, III Jornada de FLC-RJ

A criança no discurso do mestre

 

É na Idade clássica, entre os séculos XVI e XVII com o aparecimento de uma preocupação educativa que o lugar da criança começa a se modificar no discurso da sociedade. Ela passa de um lugar na Idade Media em que era vista como um adulto para um lugar em que se torna o centro, cujo objetivo era a formação de adultos convenientes com os ideais da sociedade daquela época. O significante criança surge então atrelado ao significante educação, implicando dessa forma que a criança ainda não seja vista como sujeito, mas como um objeto assujeitado ao adulto, um objeto que visa ser transformado.

É no século XIX com Freud que surge a psicanálise operando no sentido contrário aos ideais da época que ainda acreditava ser possível moldar suas crianças pelo viés da educação.

 

Na escuta de suas pacientes histéricas, Freud retorna à criança visada pelo gozo, um gozo que deixa traços no adulto, como bem nos aponta em seu texto de 1905, ao expor as teorias sexuais infantis contrapondo às teorias moralizantes da época. Do texto de 1905, “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, à teoria de Lacan, alguns desvios surgiram a partir justamente daqueles intitulados “ psicanalistas de crianças”. Correntes da psicanálise que Lacan num texto de 58 denominou de “Pirâmide das Heresias”.  Evidencia-se muito claramente estes desvios na abordagem dos psicanalistas do Ego que tinham em Anna Freud sua linha mestra. Uma abordagem com uma intenção educativa, podemos mesmo dizer, ortopédica junto à criança, não se preocupando com o sujeito aí implicado. Fazia-se então uma distinção entre análise de crianças e a análise de adultos. As crianças não teriam condições de estabelecer uma relação analítica, associação livre nem pensar! Observamos nesta linha que o analista encarna um lugar realmente de saber. Num outro vértice da pirâmide, “ o eixo tomado da relação de objeto”, vamos encontrar outra psicanalista também citada por Lacan, Melanie Klein. Se de um lado ela resgatada a criança de volta para o discurso analítico, por outro como seu principal instrumento é a interpretação, tudo passa a ser interpretável, recolocando o analista novamente num lugar de saber, privilegiando o significado em detrimento do significante. Invadindo o analisante com significantes que poderíamos nos perguntar se são realmente seus.

 

Uma coisa é certa não há distinção entre análise de crianças e análise de adultos. O sujeito de que tratamos é um só, é o sujeito do inconsciente. Um sujeito que só vai ter possibilidade de emergir na experiência analítica, com a regra fundamental estabelecida por Freud, a associação livre. Logo, a criança, mesmo trazida pelos pais, terá que fazer seu próprio percurso analítico como qualquer sujeito. Uma questão que se impõe a todo aquele que seja psicanalista e que penso ser importante na medida em que o tema da Jornada de Búzios é “A criança no laço social”,  seria sobre que discurso, que laço a criança ainda é colocada? Será que no discurso vigente ela é vista como sujeito, ou ainda como, ao que parece no discurso contemporâneo, objeto de cuidados, objeto da lei,  de um Outro que dela tudo sabe e que como sempre só quer o seu Bem?

 

Consuelo Pereira de Almeida

Please reload

a escola: 

 

"O termo Escola deve ser tomado no sentido em que queria dizer em certos lugares refúgio, ou bases de operação contra o que já se podia chamar de mal-estar na civilização."

 

Jacques Lacan

© 2015 Leonardo Pimentel

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon