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I JORNADAS INTERFÓRUNS
PRELÚDIO VI

A perda de um lugar no desejo do Outro

Ronald Lopes de Oliveira

A clínica psicanalítica desvenda as contradições, ambiguidades e conflitos presentes em temas como identidades e singularidades. O processo de identificação do sujeito com o significante o constitui como falta e propicia a emergência de identidades plurais. No entanto, é na nomeação que encontramos formas de lidar com a opacidade estrutural do objeto, conferindo-lhe contornos e bordas.

O nome não deriva da essência do objeto, mas é o tempo do objeto, na medida em que a nomeação altera a percepção daquilo que foi nomeado. A desconstrução da noção de identidade requer metodologias singulares e plurais, que ao mesmo tempo se fecham e se abrem para o outro. Nesse momento, as marcas do Outro afirmam uma ordem simbólica que a precede. Por exemplo, ao tratar de etnias africanas imaginárias as “populações supostamente sem Estado responderam de forma identitária a imagem que os colonizadores forneciam deles mesmos”[1]. As identidades coloniais não são inflexíveis e os estatutos sociais não tão rígidos quanto parecem, e é por isso que não se pode considerar a unidade perceptiva como resultado da soma da experiência ou dos estímulos sensoriais desprovidos de uma interpretação significante[2].

No entanto, todos os sistemas de dominação se alimentaram, por exemplo, das teorias da etnia e manipularam habilidosamente os sentimentos étnicos[3]. A saída é que a nomeação não designa algo definitivo da coisa e pode ser forjada a partir do encontro com outros nomes. O analista deve estar atento às fragmentações, decomposições e aglutinações infiltradas nos significantes que lhes chegam aos ouvidos, pois a palavra “etnia” carrega pregnâncias da zootecnia, das descobertas genéticas mendelianas e eugênicas de crioulização[4]. Em outras palavras, o desejo é algo que não se expressa diretamente, mas que é transmitido entre as palavras, na verdade não inteiramente dita. O que se diz é apenas uma meia verdade.

As relações entre palavras e objetos são complexas, e alterar o nome de um objeto pode mudar a percepção que temos dele. Esse fenômeno tem sido observado em ações que buscam o politicamente correto, que por vezes geram debates acalorados. No entanto, é importante lembrar que os nomes e as palavras têm um alcance muito amplo e que a relação entre eles e os objetos é arbitrária[5]. Como afirma um autor, “a etnia nunca é um simples quadro formal cuja comodidade operatória compensaria o arbitrário”[6].

Todos os sistemas de dominação se alimentam das entrelinhas das identidades, infiltrando-se nos significantes e colonizando sentimentos identitários. Mas na verdade ninguém é membro exclusivo de uma etnia, gênero, família, classe ou qualquer outra nomeação que generalize a singularidade[7]. Famílias, por exemplo, podem ser construídas por um ato de escolha, e não necessariamente por uma relação biológica[8]. O que realmente importa são as soluções inventadas por cada um, a partir da sua própria amarração única do Real, do Simbólico e do Imaginário, descolonizada das marcas do Outro[9].

 

[1] BAZIN, Jean. A cada um o seu bambara In: AMSELLE, Jean Loup & M’BOKOLO, Elikia. (Orgs.). No centro da etnia: Etnias, tribalismo e Estado na África. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
[2] Idem.
[3] AMSELLE, Jean-Loup. “Introdução” e “Etnias e espaços: para uma antropologia topológica” + In: AMSELLE, Jean Loup & M’BOKOLO, Elikia. (Orgs.). No centro da etnia: Etnias, tribalismo e Estado na África. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
[4] Idem.
[5] LACAN, J. (1976-1977). Seminário 24: l’insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre. Disponível em: <www.gaogoa.free.fr> Acessado em: 04/02/2023.
[6] BAZIN, Jean. A cada um o seu bambara In: AMSELLE, Jean Loup & M’BOKOLO, Elikia. (Orgs.). No centro da etnia: Etnias, tribalismo e Estado na África. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. p.124.
[7] AMSELLE, Jean-Loup. “Introdução” e “Etnias e espaços: para uma antropologia topológica” + In: AMSELLE, Jean Loup & M’BOKOLO, Elikia. (Orgs.). No centro da etnia: Etnias, tribalismo e Estado na África. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017
[8] APPIAH, Kwame Anthony. “Identidades africanas” In: APPIAH, Kwame Anthony. Na Casa De Meu Pai. A África na Filosofia da Cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
[9] LACAN, J. (2005c). O Seminário, Livro 23: O sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar